Vitae Civilis - Cidadania e Sustentabilidade

A lambança brasileira

Lambanca

Na tentativa de fechar o acordo, ainda que aguado, o texto costurado pelo Brasil atraiu uma saraivada de críticas de países do Sul e do Norte. Todos os compromissos limitam-se a conceitos e processos. Conheça as principais medidas concretas que foram eliminadas até a data de ontem, 18 de junho

Por Samuel Gabanyi, com colaboração de Rubens Born e Silvia Dias

[Atualização: Este artigo refere-se ao texto de negociação apresentado no sábado (16). Na madrugada desta terça-feira (19), o governo brasileiro apresentou uma segunda versão, que pode ou não conter mudanças substantivas. O conteúdo ainda está sendo analisado pelos autores]

Apesar das várias divergências que estão travando as negociações do documento oficial da Rio+20, a revisão do governo brasileiro conseguiu uma unanimidade: deixar todos mais infelizes que felizes.

Em que pese o pedido do embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado por um espírito de flexibilidade a todos os envolvidos, o resultado é que o novo texto está sendo duramente criticado pelos corredores, tanto pelos países quanto pela sociedade civil. Sua linguagem fraca com mensagens altamente abstratas evidencia o risco de fracasso da conferência, apesar do esforço realizado com a simplificação ou, em alguns casos, sumária eliminação de parágrafos que tinham muitas controvérsias. Já foi dito que novas inclusões estão descartadas e que um documento acordado precisa estar pronto antes da chegada dos chefes de Estado e de Governo.

O grande entrave segue sendo o de Mecanismos de Implementação e recursos financeiros: o fundo de US$30 bilhões anuais entre 2013 a 2017 e de US$100 bilhões a partir de 2018 foi eliminado. Tudo que restou foi o parágrafo que fala da necessidade dos países desenvolvidos cumprirem a meta de destinar 0,7% do PIB para auxiliar o desenvolvimento dos países em desenvolvimento e ter como alvo entre 0,15% e 0,2% para os países mais pobres, algo que apenas reitera compromissos da Rio92.

Os únicos alentos para essa seção foram a referência a financiamentos inovadores e a possível criação de um processo intergovernamental para propor soluções de financiamento ao desenvolvimento sustentável. Apesar de postergar as soluções, esse trecho traz de volta à ONU a prerrogativa de discutir a questão financeira – um papel que vem sendo relegado apenas a FMI e G20 nos últimos anos.

A expressão “responsabilidades comuns, porém diferenciadas” simplesmente desapareceu de várias partes do texto, embora ainda conste do trecho “Visão Comum”, assim como o direito ao desenvolvimento. Um aparente detalhe trai o espírito deste novo documento: a primazia da expressão “crescimento econômico sustentado”, que não tem nada a ver com crescimento econômico “sustentável”. O parágrafo que solicitava a inclusão dos custos sociais e ambientais nos preços também foi suprimido, o que é claramente um retrocesso, já que esse tema constava nos compromisso da Rio-92, na Agenda 21.

Esses detalhes têm um potencial nefasto, pois integram-se a parágrafos muito abstratos e com linguagem confusa. A título de exemplo: o texto cita a necessidade de diminuir os impactos ambientais, mas não fala o quanto e muito menos como. Outro exemplo é a questão dos subsídios: fala-se em eliminar apenas os subsídios ineficientes, conceito que pode ser interpretado de inúmeras formas – inclusive sob o viés da eficiência dentro dos parâmetros da economia marrom.

No que tange aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), considerados por alguns como um dos pouco possíveis sucessos da negociação, o texto falha ao não definir temas, números e prazos. Como alternativa, recomenda designar um comitê para iniciar um processo que deverá apresentar um relatório sobre os ODS em setembro de 2013. Pelo visto, a Agenda 21 está condenada ao esquecimento.

A falta de ambição foi uma crítica comum a países desenvolvidos e em desenvolvimento. A União Europeia foi enfática. Condenou o fato de que o texto não provê soluções para os desafios que estamos enfrentando. Deixou claro que a parte de arranjos institucionais para o desenvolvimento sustentável está muito aquém do esperado. Argélia, China, G77 e Arábia Saudita destacaram a indefinição quanto aos meios de implementação e auxilio financeiro e questionaram o que iremos tirar dessa conferência, já que todos os compromissos estão no nível de processos e conceitos. Até os Estados Unidos disseram que estão preocupados com muitas partes do texto.

A sociedade civil também ficou decepcionada. Expressões como “desapontador”, ”linguagem fraca”, “vergonha” e “falta de ambição” são apenas alguns exemplos da revolta das ONGs com o novo documento. Preocupa, sobretudo, que em todo o texto não sejam encontradas menções à justiça ambiental, a limites planetários e ao Principio 10, que trata de acesso à informação e participação.

Por outro lado, eficiência e crescimento econômico são termos recorrentes, um inegável desalinhamento com as metas propostas para a Rio+20. Não é de se estranhar, portanto, que a criação do Conselho de Desenvolvimento Sustentável tenha sumido do texto. Ou que o PNUMA não seja reforçado como agência e que a proposta de um Comissário Para as Futuras Gerações tenha sido apagada. O objetivo de elevar o status da questão ambiental no âmbito da ONU parece ter sido esquecido.

Dada a falta de tempo para mais negociações, o novo texto provavelmente irá atingir o objetivo brasileiro: ser concluído antes da chegada do primeiro escalão. Ninguém quer assumir o ônus de encerrar a Rio+20 sem uma declaração para mostrar. Mas, com certeza, não é este o futuro que queremos.

Rio+20: versões do texto oficial

Rascunho Zero
Apresentado pela ONU em janeiro

 

"Rascunho 1"
Resultado das negociações informais em Nova York, apresentado em maio

 

Texto final NY
Apresentado em 2 de junho, é o rascunho que abriu negociações no Rio de Janeiro

 

Texto brasileiro
Apresentado em 16 de junho, no Rio de Janeiro

 

Proposta final
Apresentado em 19 de junho, no Rio de Janeiro, aguarda aprovação do Segmento de Alto Nível

 

Quadro comparativo
As duas últimas versões comparadas, lado a lado, parágrafo a parágrafo


Outros documentos:


Declaração Universal dos Direitos Humanos

Publicada pela ONU, em 1948


Declaração de Estocolmo

Resultado da primeira reunião da ONU sobre meio ambiente, em 1972


Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento

Resultado da Rio-92


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